terça-feira, maio 05, 2015

Boca maldita

(Texto publicado originalmente em setembro de 2012, desenterrado junto com outros que irei mandando por aqui.) 


            Era o terceiro atraso de relatório no mês, e eu sabia que o Marcos colocaria novamente a culpa em mim. Faz isso pelas minhas costas, procurando o chefe antes de qualquer um. O que é realmente injusto é eu fazer minha parte (em tempo hábil), entregar para ele (ainda em tempo hábil) – que é meu superior – e ele atrasar a dele. Naquele dia não seria diferente.

Antes das 15:00 o vi levantar e ir até a sala do chefe, com minha parte do relatório em mãos. Seguramente, iria dizer que é a dele, e que eu, estagiário, não teria feito minha parte. “Sabe como são os estagiários”. Maldito. “Que morra de lizipela no cu.” – sussurrei baixinho.

            Dia seguinte Marcos nem apareceu. Deve ter ganhado um dia de folga como recompensa por entregar a parte “dele” no relatório em tempo, e agora o estagiário iria ficar até mais tarde pra terminar a parte realmente dele – como já aconteceu antes. Folgado.

O telefone tocou. Era o chefe, me chamando na sala dele. Fodeu. Fodeu fodido. Demissão, na certa. Três relatórios seguidos, o estagiário não teria como sobreviver.

- Olha, nem sei como te falar isso, mas... – O chefe estava hesitante, o que era estranho, pois não era conhecido por ter enorme coração. Quanto mais ele demorava, menos meu preparo psicológico se mantinha. Eu só pensava se meu currículo estava atualizado ou não. E então, finalmente, o chefe cortou o rodeio:

- O Marcos faleceu ontem.

            Gelei. Não gostava do cara, mas não desejava sua morte. Acho. Aliás, não desejo a morte de ninguém.

- Como? – Perguntei perplexo. – Como assim? Morreu? 
- Lizipela. No ânus, rapaz. No ânus. Quem poderia imaginar uma coisa dessas? No ânus!

            Pareceu que o chefe estava mais constrangido em falar “ânus” do que abalado com a morte do Marcos. Eu estava sem sangue correndo no corpo. Gelado como um freezer. Eu desejei a morte dele, mas digamos que foi “de brincadeira”. Falei por falar. Todo mundo faz isso. Nem sei o que é “lizipela”, mas não pensei que alguém poderia morrer disso. Ainda mais no cu.

- Eu sei que era você quem fazia os relatórios do Marcos. Então, você fica no lugar dele. Depois que isso passar, procuramos alguém pra te ajudar. Passa no RH depois, fala com a Ruth e acerta sua carteira de trabalho.

                Promovido. Por uma lizipela no cu. E pela morte de uma pessoa, claro. Mas é impossível ter relação com o que eu falei. Impossível. Isso não existe. “Mau olhado”, essas coisas. Não existe, foi uma coincidência infeliz, só pode. Mas que impressiona, impressiona.
                Bem, vida que segue. Vamos aos meus problemas atuais: eu odeio a Ruth. Mulher escrota, nem olha na sua cara quando fala com você. Mas vai ter que me aturar, ah vai. Sou gerente agora, tá pensando o que? Se me olhar torto agora, vai ver só.

- E o salário, foi pra quanto? – Perguntei. Ela nem me olhou pra mim enquanto entregava minha carteira de trabalho.
- É o mesmo salário. – Resmungou. E eu acho que vi um sorriso sarcástico no canto da boca dela. - Se não está feliz, vai reclamar com o chefe. – Concluiu.

                Virou as costas e foi embora. Velha escrota. “Espero que morra engasgada com uma rola” – pensei, enquanto me dirigia para minha nova sala.
                
                 Após o almoço, uma confusão no andar. Todos abarrotados na porta da sala de Xerox. Tentei me espremer no “petit comitê” de fofoqueiros, mas não dava pra coisa alguma além da ponta de uma bota que acreditei ser do bombeiro.

- Ô Juca, o que aconteceu? – Juca já estava com aquela cara de “tia tricoteira”, só esperando alguém perguntar.
- Você não imagina, rapaz. Sabe a Ruth do RH? Estava de caso com o Rubens, da contabilidade.
- Caramba, que coragem do Rubens. Mas e o que é que tem? Eles estão fazendo show? Porque tá todo mundo amontoado aqui...
- É aí que tá! Eles estavam transando escondido na sala de Xerox, e o pau do Rubens ficou preso na garganta da Ruth. Ela morreu engasgada com a rola dele! Acredita numa porra dessas?

                Quase desmaiei. Não era possível. Não pode ser coincidência. Eu sou um monstro. Estou matando pessoas desejando a morte delas. Minha pressão caiu. Precisava ir ao banheiro antes que a visão escurecesse completamente. Nem escutei o Juca perguntando se eu estava bem, só deu tempo de chegar ao banheiro e me apoiar na pia. Joguei uma água na cara, rezando pra acordar de um sonho ruim.

Não pode ser. Não é possível. Calma. Calma. Tem que ser outra coincidência. Duas coincidências seguidas. Acontece, não é? Claro que acontece. É estatisticamente difícil, mas é possível. É como o resultado da loteria ser um, dois, três, quatro, cinco e seis. Beira o impossível, mas pode acontecer. Acho que nunca aconteceu, mas pode. Pode, não é?

Vai ver a rola do Rubens era algo dantesco, não sei. Mas tinha que ter uma explicação científica. Até então, eu nunca ouvira história alguma de alguém que morreu engasgado com uma rola. Mas isso não quer dizer que nunca tenha acontecido. Espero. Não! Quer dizer, não espero! Não estava conseguindo nem mais pensar direito. Joguei uma água na cara e um jogo de “inspira/expira”. Após algum tempo, já estava respirando novamente. Dava pra levantar a cabeça. Olhando no espelho, eu estava parecendo um zumbi.

- Puta que me pariu. Eu sou um filho da puta mesmo. – Foi tudo o que eu consegui dizer para o espelho.

                Fomos dispensados. A tensão emocional era enorme, não havia mais condição para trabalhar, pelo menos até o final da semana. Ontem o Marcos, hoje a Ruth. Sem condições. Melhor assim, fui pra casa. Precisava tomar uma cerveja, pensar em outra coisa.

                Acho que fiquei uma hora no banho. Tentei pensar em outra coisa, mas o pesadelo de que tinha sido eu que causei a morte deles não deixou. Mulher. Pensar em mulher é bom. Mulher é bom. Mulher e cerveja, não tem coisa melhor pra esquecer os problemas. Cerveja eu já tenho, preciso de uma mulher. Rápido e sem frescura. Uma boa trepada vai me fazer esquecer toda essa besteira. Eu não matei ninguém. Não gostava deles, mas claro que não fui eu. Que idiotice. Bobagem. Nonsense.

                Conheço um site bom de garotas de programa. É caro, mas vale a pena. Só modelo, coisa fina. Acompanhante de executivo. E agora eu sou executivo, sou gerente. Com salário de estagiário ainda, mas sou gerente poxa. Eu mereço um luxo. Pelo menos hoje. Eu mereço.

                O site mudou. Tá estranho. Umas mulheres mais...”maduras”, por assim dizer.
Espera aí. O que é isso? Eu conheço essa mulher... Não. Não pode ser....


- Mãe?