Ah, a inocência da juventude. O fascínio pelas novas descobertas, o híbrido do medo e da excitação das novas experiências…Sei que pode ser difícil de acreditar (ou não), mas um dia eu também fui puro e inocente. Tá, nem tão puro e nem tão inocente, mas é óbvio que eu não conhecia tudo da vida, oras.
Nós homens acreditamos que quando tiramos carta de motorista nossa vida vai mudar, e todas as mulheres do mundo – de uma forma mágica – irão nos admirar imediatamente, pomposos dirigindo nossos carros (ou, em sua grande maioria, os carros dos nossos pais, como foi o meu caso) e nosso grau de sedução aumentará consideravelmente. Não tardei a perceber que isso não era bem verdade, mas como todo bom homem não desisti e dirigia em toda oportunidade em que acreditava que pudesse viabilizar algum tipo de sexo.
E foi em uma dessas que em um final de ano, término das aulas, eu e mais alguns amigos de sala nos reunimos em um bar para comemorarmos o fim daquele não tão aproveitado ano estudantil. Bebidas, risadas e despedidas, os ingredientes certos para a fórmula do sexo ocasional. Alguns de nós mudaríamos de curso e não nos veríamos mais, o que aumentava o grau de periculosidade para que alguma coisa acontecesse. E foi assim que uma de minhas amigas do curso resolveu aproveitar-se da situação, me lançando a proposta indecorosa : "Vamos pra outro lugar?".
SEXO. A palavra brilhava na minha frente como um chamado divino, como o cálice sagrado. Eu finalmente iria transar e graças ao meu carro eu poderia ir para qualquer lugar. O topo da virilidade masculina estava ali, sexo e automóvel. Enfim.
Interlúdio: Preciso lembrar que fui uma criança que cresceu com os enlatados dos USA, como diria Renato Russo. Durante um bom tempo da minha vida, os desenhos do Pica-Pau foram meu "life-style", e seriados como "Moto-Laser", "Trovão-Azul", "MacGaiver" e outros me mostravam o "American Way of Life", o que ditava o meu padrão de comportamento mundial. Mesmo já crescido, alguns desses padrões narrados em livros, revistas, gibis e seriados de TV ainda estabeleciam um padrão para mim. Dito isso, prosseguimos.
Foi então que, ao perguntar onde ela queria ir, ela disse que queria ir a um "Drive-In". Achei estranho, pois com o leque de possibilidades que o automóvel me proporcionava, ela queria ir justamente a um Drive-In? Tudo bem, mulher é um bicho estranho mesmo. Mas percebendo que não passava muito do meio-dia pensei que pudesse existir alguma regra silenciosa onde as pessoas não podiam ir a motéis naquele horário, por exemplo. Algo que pudesse não ser de bom tom, sei lá. Ok, Drive-in que seja.
Com o peito estufado e mostrando segurança ao segurar o volante, mostrei inutilmente minha destreza para a garota, que parecia mais se preocupar em encontrar algo em sua bolsa do que apreciar um verdadeiro mestre ao volante. Ela se limitou a me instruir o caminho, pois eu não fazia idéia de onde poderia existir um Drive-In lá perto. Na verdade, pensando bem, eu não imaginava inclusive que existiam muitos "Drive-In" na cidade de São Paulo. Lembrava apenas de um no início da Marginal Tietê, que sabia da existência por sempre passar por ele voltando de alguma viagem ao interior.
Chegamos ao local, que devo dizer, me preocupou um pouco. Era um local meio sujo, próximo ao Shopping Center West Plaza, recém inaugurado. Me pareceu um lugar meio esquecido por Deus, que nem de longe me lembrava um Drive-In. Um funcionário, tão moribundo quando o lugar, me apontou com desdenho uma portinhola onde aparentemente eu deveria entrar com o carro. Desconfiado, fui portinhola a dentro, até não ter mais pra onde ir. O funcionário me seguiu e fechou uma cortina verde de plástico, de um mau gosto impressionante.
Pausa. Olhei o ambiente como um todo, e segui pensando que o desleixado funcionário abriria alguma passagem na parede a minha frente, e então seria feita alguma organização no local. Era minha primeira vez em um Drive-In, e não estava sendo nada como o esperado.
Indignado, expus todo meu desapontamento em sábias palavras : "Mas que porra é essa?". A garota sem entender muito bem, perguntou se havia algum problema, e eu balbuciei algo como "Cadê a porra do filme?", que acho que ela fingiu não entender. Utilizando da mesma virilidade empregada na direção precisa até o local, disse para ela : "Peraí que eu vou lá resolver isso", e sai do carro em busca do maldito funcionário do local.
Nova pausa, esta dramática. Lembrando dos tenros desenhos do Pica-Pau (que hoje em dia querem classificar para maiores, aliás), o "Drive-In" não era nem de longe o glamour dos americanos. Para mim, o Drive-in deveria ter uma tela enorme de cinema, com vários carros parados um do lado do outro e garçonetes de patins servindo bandejas com hamburger e milk-shake para toda uma geração de jovens com jaquetas de couro e blusões de torcidas organizadas. Na minha cabeça, tudo bem não ter todo esse glamour, afinal, estamos no Brasil (e na época, mais terceiro mundo, impossível), mas eu paguei pela entrada, e tinha direito ao menos ao filme. Tá, você já entendeu que eu não fazia idéia do que era um Drive-In.
Quando sai do carro, fui em direção ao funcionário que me admirava com um olhar confuso. Na determinada caminhada até meu algoz, observei que outros carros também aguardavam atrás de cortinas verdes tão feias quanto a qual eu havia sido presenteado. Mas meu cérebro – ainda tomado pela bebida e pela quantidade avassaladora de informações – não processou a tempo da conversa com o admirado funcionário:
- Cara, cadê o filme? – Indaguei.
- Filme? – Respondeu o cidadão com um dos maiores rostos de interrogação que eu vi na vida. Aproveitei pra dar uma nova verificação no local, e então a ficha começou a cair. Ah… ISSO era um Drive-In. Um lugar pra parar o carro e fazer sexo selvagem, ou a popular "rapidinha". Estrago feito, não podia perder o resto de hombridade que ainda existia em mim.
- Deixa pra lá. Tem alguma coisa pra comer?
- Comer? – Ele não cansava de fazer o rosto de interrogação.
- É, comer, pô. Tô com fome. Você não tem nada pra comer aqui?
- Bem…eu posso pedir pra fazer alguma coisa pro senhor aqui no bar do lado…
- Isso, faz isso. Faz um misto pra mim. Leva lá pra mim quando chegar. – E determinado, certo da vitória, voltei para o carro, onde a garota já se encontrava praticamente nua. Sem me alterar em nada, disse calmamente para ela:
- Escuta, melhor você colocar a roupa, porque o cara vem trazer um misto-quente daqui a pouco.
- O que? – Percebi que ela conseguia fazer um rosto de interrogação melhor que o funcionário do local.
- Deixa pra lá, eu espero ele lá fora.
É claro que a garota colocou a roupa e saiu andando. Nem me preocupei em explicar nada, afinal isso abalaria minha hombridade naquele momento. No fim, descobri o que era um Drive-In, mas não vi nenhum filme, e fatalmente, não comi ninguém. Mas comi um Misto-Quente. E estava bom. Talvez porque eu realmente estava com fome, vai saber.